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Ainda?
A primeira: “Há ou não relação entre elite social e ensino superior?” Obviamente sim. Sem diploma, não se acessa determinadas carreiras reservadas para níveis superiores.

A segunda: “A proporção de alunos negros na universidade corresponde à proporção de negros na sociedade?” A resposta é não. Apesar de sermos um povo basicamente mulato, as universidades são ocupadas sobretudo por brancos ou quase brancos. Apenas 2% dos alunos são negros, enquanto, na população, os auto-declarados pardos e negros são 49,5%. Por isso, outra pergunta: “É preciso aumentar o número de negros na universidade?” A resposta é obviamente afirmativa. Se quisermos ser uma democracia racial, precisamos aproximar a cor-da-cara-da-elite da cor-da-cara-do-povo, e para isso, precisamos ter mais negros no ensino superior.

Daí, outra pergunta: “Como fazer para que a universidade deixe de ser apenas de brancos e mulatos claros?” Essa pergunta exige outra: “A universidade brasileira é de brancos por causa do racismo?” A resposta é não. Não há negros na universidade porque no Brasil os negros são pobres. A escola de qualidade é privilégio dos ricos e das classes médias que conseguem acesso às boas escolas e aos cursinhos.

Então, outra pergunta: “O caminho para quebrar a exclusão de negros na universidade não está na quebra da exclusão de pobres com uma escola de qualidade para todos, dos quatro aos 18 anos?” A resposta é sim. Esta é a saída: os filhos dos pobres na mesma escola dos filhos dos ricos, sejam negros, brancos, mulatos, índios. Com escolas iguais, disputarão igualmente, sem cotas, o direito de ingressar na universidade, dependendo somente de talento e persistência.

“Então, o fim da segregação de pobres e ricos na escola de base resolveria o problema da segregação racial no ensino superior?” Claro. “Mas isso pode ser feito de imediato?” Se começarmos essa revolução agora – e não parece haver vontade nacional para isso – seriam necessários 20 anos para atender igualmente as 48 milhões de crianças do Brasil.

“E até lá?” Até lá, só as cotas conseguirão aumentar ligeiramente a proporção de negros na universidade.

“E as cotas vão beneficiar os pobres?” Não. Vão beneficiar o Brasil, dando um minúsculo passo para completar a abolição da escravidão. E vão beneficiar alguns jovens negros que conseguirem concluir uma boa escola de base, fazer cursinho, passar no vestibular. O que raramente uma criança pobre consegue, seja negra ou branca.

“E isso não vai reduzir a segregação ao preço de excluir brancos aprovados na frente de negros?” Não, se as vagas previstas forem preenchidas pelos primeiros colocados, independente da raça, aumentando o número de vagas para atender os candidatos negros que passarem no vestibular em uma classificação inferior.

“Mas isso não fará cair a qualidade?” A qualificação de um profissional não decorre da sua classificação no vestibular. Dezorre de ter feito boa escola de base, ter passado no vestibular, ter concluído um bom curso superior e seguir estudando ao longo de sua vida profissional.

Fica uma pergunta que os historiadores farão no futuro: “Como era possível, 120 anos depois da Abolição, o Supremo Tribunal Federal ainda ser acionado para considerar se era legal ou ilegal o uso de cotas para negros?”
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Cristovam Buarque é Professor da Universidade de Brasília, Senador pelo PDT / DF. www.cristovam.org.br / n cristovam@senador.gov.br



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